Sempre gostei e sou bastante fã da literatura de J. R. R. Tolkien. Mas confesso que, por muito tempo, eu hesitei em aceitar essa sua ideia. E pensava: "como pode? Como pode um intelectual desse porte escrever um romance simplesmente por escrever? Fazer historinhas é algo que faço desde a minha primeira aula de redação, no ensino fundamental. Não é possível! Deve existir, com certeza, alguma mensagem que o escritor quis deixar por trás de toda essa história!" E então me vinham à mente aquelas coisas que aprendemos na nossa formação esquerdista dos colégios brasileiros: "será que Tolkien era mais um desses babacas de Hollywood que fazem histórias para alienar as pessoas? Será que Tolkien era burro? Será que Tolkien não tinha uma visão profunda da sociedade, da filosofia, da vida e de tudo mais?"
Meu amigo, se você tem esse questionamento, ou se até mesmo já aceitou esse fato, por favor, leia Tolkien. E, antes de ler, por favor, deixe um pouco de lado sua face "adulta" e leia como uma criança, curiosa, despreocupada, interessada. E então, você verá como é difícil não gostar de um lindo romance de fantasia como O Hobbit. É uma linda história, linda e trabalhada até os mínimos detalhes, como uma catedral gótica, como uma música barroca, como, até mesmo, a folha de uma árvore. É uma história que não procura fazer você refletir, não procura fazer uma análise social, não procura transformar a sociedade, não procura discutir conceitos filosóficos; e pelo contrário, é uma história que só procura ser uma linda história. Isso não basta para nós, hoje? Ou pior - será que isso é "pecaminoso" demais para nós, hoje; uma história bonita que, como dizem por aí, "é arte de elite que não presta para nada além de alienar"? É uma pena que o amor à beleza de muitos, hoje, acabou sendo sufocado pelo orgulho intelectual, pela necessidade de glória própria e pelos frutos do pessimismo da filosofia moderna, do existencialismo, do niilismo, do desconstrucionismo.Tolkien é uma voz que clama no deserto, até os dias de hoje, colocando-se frente à modernidade, à arte contemporânea, e à cultura da idolatria ao útil. Tolkien para mim, não é só um artista, mas é quem me convenceu da necessidade da arte. Que o homem gosta de passar alguma ideia ou lição de moral em sua arte, isso não se duvida, mas fazemos isso exatamente porque a verdade e a moral são bonitas para nós. Mas ao imaginar as trilhas e caminhos por onde Bilbo Bolseiro caminha pelo condado, vejo que o propósito da arte não está em discutir ou construir a verdade, e sim, somente celebrá-la, abrindo espaço para que toda a beleza que conseguimos capturar da natureza ou criar nas nossas mentes apareça, destacada, e nos encha de alegria. Comentei que "escrever historinhas é coisa de crianças de ensino fundamental". Pois é, e continua sendo, até que a nossa cultura moralista e hipócrita tira isso de nós. Onde foi parar a nossa arte de criança, a arte decorrente de uma admiração profunda por tudo aquilo que podemos ver? Arte, como o próprio C. S. Lewis comenta, é inútil para a sobrevivência, mas, pelo contrário, é uma daquelas coisas que dão valor à sobrevivência. E, muito mais para os cristãos, é louvor ao Deus supremo e Criador de todas as coisas.
Você, artista, estaria livre para seguir como Tolkien e valorizar a arte da mesma maneira que ele valorizou? Pense bem. Embora ainda haja muito a ser feito no mundo, uma mente que não está treinada a parar e prestar atenção no tamanho da glória que nos cerca em pouco tempo tornará a existência um fardo. Qualquer mudança, por mais útil que pareça, será inútil quando você não se dispõe a olhar sua pequenez e reconhecer um Deus soberano, criador de tanta beleza, para a nossa alegria e adoração. Pense bastante no céu, onde não haverá mais nada a ser feito para que o mundo melhore, e nada que possa te render reconhecimento. O que sobrará para fazer? Sem dúvida, "somente" aquilo para o que fomos criados: glorificar a Deus e gozá-lo para sempre!
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