01/02/2012
Culto Solene
Sempre ouvi por aí muitos pregadores cristãos falarem o tempo todo e defenderem a ideia do culto solene. "Solene?" - eu me perguntava. "O que é isso?" E embora eu acertadamente associasse isso a uma crítica aos exageros dos pentecostais e neo-pentecostais nos cultos cristãos, nunca pude compreender o sentido exato da palavra. Entendia o que não era, porém, não o que era. E então, por vários anos, creio que passei por um processo bastante vagaroso, porém produtivo, até entender razoavelmente bem o que é que estes pregadores queriam dizer ao exigir tanto aquilo que chamavam de solenidade. E o processo, além de vagaroso, também teve seus pontos de instabilidade - más compreensões do que é um culto solene, e, com isso, atritos desnecessários com algumas pessoas. O tempo passou, eu errei e aprendi muito; e por isso, agora, escrevo. Já aviso que o texto é voltado mais para cristãos (tenho que avisar pois é o preço de se ter um blog onde eu escrevo de tudo).
Mas devo alertar: mesmo reconhecendo os meus erros quanto a algumas críticas que fiz, o que o que eu pretendo escrever aqui ainda tem um caráter bastante exigente e que coloca uma situação para igreja brasileira ainda longe de ser alcançada. A solenidade dos cultos ainda continua sendo um evento raro nas igrejas atuais. Mesmo tendo errado quanto à definição de um culto solene, ainda não me convenci de que a situação não é alarmante...
E por isso, vou ser chato e irritante agora. E vou usar exatamente a expressão que ouvimos por aí: o culto solene é sim, aquele tal culto "morto". Sim, é aquele culto quieto, onde as músicas te dão sono, o pregador fala com calma. Não tem agitação e não tem euforia. Sim, isso é um culto solene, e o que eu estou para defender aqui é que devemos, sim, buscar um culto desse jeito.
Acalme-se... eu vou me explicar! Não, eu não falei sério quando disse que quero um culto morto, apesar de muitas pessoas dizerem isso dos cultos solenes. Não, essa não é a definição de solenidade. Solenidade é (e agora vai realmente a minha definição) espírito de reverência e quebrantamento diante de Deus. É estar reunido com os irmãos em Cristo com um coração aberto para receber a palavra e ouvir a voz de Deus. É estar de joelhos, em oração, em silêncio, mas também em comunhão com os irmãos. Solenidade, para mim, pode ser resumida numa plaquinha que pude observar, certa vez, no templo de uma igreja da Assembleia de Deus (puxa vida, não?) que visitei: "silêncio e oração".
Sim, solenidade gera silêncio, rostos sérios, cabeças baixas. Mas não é morte; não é ausência de alegria, e muito menos de comunhão. O culto deve ser alegre, sim, mas também deve ser solene... e você pode imaginar o que é isso?
É difícil imaginar, em termos práticos, não? Ainda mais quando se tem toda aquela discussão sobre cultura, idade, escolaridade e sua relação com a liturgia... Dei aqui apenar uma definição, mas é uma definição que eu mesmo já sabia desde sempre. O culto solene, para ser melhor compreendido, deveria ser muito mais experimentado do que explicado, e por isso gostaria de contar duas histórias.
A primeira ocorreu numa igreja presbiteriana que visitei em outra cidade. O espaço do templo era todo fechado, com um ar condicionado, com uma porta de vidro separando essa parte de uma outra área, onde ficavam as pessoas que acabavam de chegar. Algumas até esperavam do lado de fora. Chegamos, resolvemos entrar no templo e... ! ... Silêncio. Silêncio e oração. Olhei para o púlpito e para o relógio e vi que o culto ainda não tinha começado. Ninguém conversava lá; todos estavam sentados, orando, e foi o que me senti impelido a fazer também. O culto começou sem que eu percebesse. As músicas, calmas, foram cantadas todas em paz, com poucas distrações.
Isso me faz pensar, também, no porque oramos de olhos fechados. Você já se perguntou? Oramos de olhos fechados porque nossa oração é solene e reverente. Nossa oração tem a intenção de fechar os olhos e os ouvidos para tudo o que acontece exteriormente, voltando nosso pensamento somente para Deus. Isso me leva à pergunta - de que adianta você fechar os olhos para orar e considerar essencial que você tenha um solinho de guitarra no fundo, para que sua oração seja mais bonita? Por que fechar os olhos e não os ouvidos? Digo: o culto solene é um culto feito em paz, sem preocupações e muito menos observações do que acontece em volta de você. Eu mesmo sou uma pessoa que precisa de um culto bastante simples; já que minha cabeça trabalha a mil, e reparo demais nas coisas. E não acredito ser a única pessoa assim... Fica muito difícil reparar a beleza e a santidade de Deus quando se tem muito a cantar, muito a ler, muito a ver, muito a ouvir, muito a fazer.
E então chego à segunda história, que, infelizmente, acontece na minha igreja. Defendemos o culto solene, sim, mas às vezes a extrema preocupação para com isso acaba tornando-o um culto longe de ser assim. Posso dizer, com peso no coração e também tomando parte na culpa, que não muitas vezes já cheguei a ver um culto acabar e eu sequer pude sentir a presença plena de Deus ali. A causa? O que fiz foi uma sequência de ações pré-definidas e ensaiadas - toca ali, senta ali, abre a Bíblia aqui, volta pra tocar ali, vem aqui, senta aqui, faz isso aqui. Olhando ao meu redor, também via isso. E não que eu não sinta prazer em fazer isso, afinal, eu amo tocar piano. Mas era só isso, e mesmo com a noção de que fazia aquilo em louvor a Deus, a presença consoladora do Espírito Santo de Deus parecia muito longe, pois minha mente não estava ali. E então, pude me lembrar daquele culto que citei na primeira história. Mais ainda, pude perceber que os melhores cultos que já pude passar na minha igreja aconteceram no período de férias dos músicos e do conjunto coral. Nestes dias, as músicas são todas cantadas pela congregação, e são mais simples; também sobra mais tempo para a oração e a pregação, e principalmente para a reflexão silenciosa. O culto acaba sendo o que estas pessoas chamam de "morto", mas o que para elas é morto, é para mim uma vida plena na presença confortante de Deus, juntamente com os irmãos em Cristo. Marque isso: o culto solene é o culto simples. Se você precisa de muitas euforias e coisas especiais para que seu culto seja interessante, algo está errado. O culto é a Deus. Você já não sabe disso há muito tempo?
Queria dirigir uma palavrinha (com amor) a esse "irmão abençoado" que gosta de falar que o culto foi morto, e que ficou com sono durante ele. Ou para quem ouve essa linda música aqui, que cantamos no período do Advento, falando sobre a alegria - "Alegria", e diz que essa música não é alegre, e é morta. Te digo duas coisas:
1) Você é insensível. Você só sabe associar alegria com euforia. Você só sabe associar alegria com entretenimento. Você quer essa tal "alegria"? Não vá para o culto, porque ele é o pior meio de conseguir isso. Vá para um show, assista um filme, jogue videogame.
2) Se você não aguenta ficar acordado em um culto solene, volte pra casa. Sim, volte para sua cama e durma, durma bastante, depois acorde e comece já a ter o seu momento de oração e comunhão com Deus sozinho, com a porta do quarto fechada e a TV desligada. Aprenda a estar com Deus de uma maneira reverente, com calma e voltando sua atenção somente para Ele. Aprendeu? Agora você pode ir ao culto e fazer isso com outras pessoas.
Estou falando "numa boa". Mas se você discorda de tudo isso que eu disse e/ou tem objeções, comente, mande e-mails, fale! É um assunto que precisa ser discutido urgentemente, uma vez que até hoje temos problemas nessas tais discussões sobre como deve ser a liturgia. Mas já me adianto com três perguntas que me podem ser feitas. São elas:
1) O que você está defendendo não é só uma expressão cultural? Ela não pode variar de pessoa para pessoa?
Resposta: Sim, a solenidade está intimamente relacionada à formação cultural e mesmo à idade das pessoas. Você pode ir para um lugar onde uma pessoa consegue estar em paz ouvindo heavy metal (e se você conhece alguém assim, me apresente essa pessoa, pois eu preciso pedir umas dicas de como manter a atenção). Mas você pode também conhecer pessoas que já se distraem com uma mosca que começa a zumbir do seu lado na hora do culto. O que fazer? Procure respeitar todas as pessoas, desde o mais novo até o mais velho, pois o culto é comunitário. Se o rapaz que comentei aí consegue manter a atenção até mesmo ouvindo heavy metal, porque não manteria atenção sem ouvi-lo? (Se ele não conseguisse manter a atenção sem o heavy metal, a atenção dele, portanto, está não em Deus, mas na música).
2) Tudo bem, mas então, qual seria o papel da música na igreja?
Resposta: Não acabei de dizer? Devemos manter a atenção em Deus, no seu caráter, na sua santidade, e na sua revelação na Bíblia. Arte é contemplação de Deus. Logo, a arte nos ajuda a manter o foco em Deus, o autor de toda a beleza. Não obstante, também nos fará louvar e mesmo aprender sobre as verdades bíblicas. No momento em que a música perder essa função principal no culto, creio que já está na hora de você pensar em outra forma de fazer isso.
3) Porque eu iria me reunir com várias pessoas para ficar quieto e orando, de cabeça baixa?
Essa é a pergunta do cara que gosta daqueles momentos em que o pastor manda todo mundo se abraçar no meio do culto. É o cara que acha que uma comunhão verdadeira com os irmãos só acontece quando você vira para o lado e cumprimenta a primeira pessoa que aparecer. Meu amigo, o que é comunhão cristã? Eu concordo que uma igreja que só se reúne para os cultos também não teria uma boa comunhão, uma vez que isso também envolve boas conversas, almoços juntos, passeios juntos, e até abraços, sim. Mas só isso não é comunhão. Ou você não ouve e diz "amém" para o que as outras pessoas dizem, enquanto oram durante o culto? E mais - o quanto você comenta com as outras pessoas, depois do culto, sobre a pregação? Você esteve junto com ela prestando atenção no que Deus tinha a dizer através da Bíblia? Você se uniu a todas as outras pessoas para fazer um canto e uma música linda e que exalte o nome de Deus? O culto é muito diferente de estar sozinho, em casa, orando (embora as duas coisas sejam necessárias). Ele envolve comunhão, sim, e muito mais do que você (e mesmo eu), às vezes, perceba.
Estive pensando, aqui, numa boa maneira de terminar este meu texto. Mas resolvi não conclui-lo, pois o que mais gostaria de fazer agora é ouvir. Ouvir, responder, conversar, trocar ideias. Sei que esse texto vai de encontro com a visão de muitos (muitos mesmo!) cristãos que eu conheço, mas isso é bom, pois abre portas para mudanças, que podem ocorrer tanto em mim (me convencendo de que o que escrevi aqui pode estar errado), ou nos outros.
25/01/2012
06/01/2012
Tolkien me Convenceu
Sempre gostei e sou bastante fã da literatura de J. R. R. Tolkien. Mas confesso que, por muito tempo, eu hesitei em aceitar essa sua ideia. E pensava: "como pode? Como pode um intelectual desse porte escrever um romance simplesmente por escrever? Fazer historinhas é algo que faço desde a minha primeira aula de redação, no ensino fundamental. Não é possível! Deve existir, com certeza, alguma mensagem que o escritor quis deixar por trás de toda essa história!" E então me vinham à mente aquelas coisas que aprendemos na nossa formação esquerdista dos colégios brasileiros: "será que Tolkien era mais um desses babacas de Hollywood que fazem histórias para alienar as pessoas? Será que Tolkien era burro? Será que Tolkien não tinha uma visão profunda da sociedade, da filosofia, da vida e de tudo mais?"
Meu amigo, se você tem esse questionamento, ou se até mesmo já aceitou esse fato, por favor, leia Tolkien. E, antes de ler, por favor, deixe um pouco de lado sua face "adulta" e leia como uma criança, curiosa, despreocupada, interessada. E então, você verá como é difícil não gostar de um lindo romance de fantasia como O Hobbit. É uma linda história, linda e trabalhada até os mínimos detalhes, como uma catedral gótica, como uma música barroca, como, até mesmo, a folha de uma árvore. É uma história que não procura fazer você refletir, não procura fazer uma análise social, não procura transformar a sociedade, não procura discutir conceitos filosóficos; e pelo contrário, é uma história que só procura ser uma linda história. Isso não basta para nós, hoje? Ou pior - será que isso é "pecaminoso" demais para nós, hoje; uma história bonita que, como dizem por aí, "é arte de elite que não presta para nada além de alienar"? É uma pena que o amor à beleza de muitos, hoje, acabou sendo sufocado pelo orgulho intelectual, pela necessidade de glória própria e pelos frutos do pessimismo da filosofia moderna, do existencialismo, do niilismo, do desconstrucionismo.Tolkien é uma voz que clama no deserto, até os dias de hoje, colocando-se frente à modernidade, à arte contemporânea, e à cultura da idolatria ao útil. Tolkien para mim, não é só um artista, mas é quem me convenceu da necessidade da arte. Que o homem gosta de passar alguma ideia ou lição de moral em sua arte, isso não se duvida, mas fazemos isso exatamente porque a verdade e a moral são bonitas para nós. Mas ao imaginar as trilhas e caminhos por onde Bilbo Bolseiro caminha pelo condado, vejo que o propósito da arte não está em discutir ou construir a verdade, e sim, somente celebrá-la, abrindo espaço para que toda a beleza que conseguimos capturar da natureza ou criar nas nossas mentes apareça, destacada, e nos encha de alegria. Comentei que "escrever historinhas é coisa de crianças de ensino fundamental". Pois é, e continua sendo, até que a nossa cultura moralista e hipócrita tira isso de nós. Onde foi parar a nossa arte de criança, a arte decorrente de uma admiração profunda por tudo aquilo que podemos ver? Arte, como o próprio C. S. Lewis comenta, é inútil para a sobrevivência, mas, pelo contrário, é uma daquelas coisas que dão valor à sobrevivência. E, muito mais para os cristãos, é louvor ao Deus supremo e Criador de todas as coisas.
Você, artista, estaria livre para seguir como Tolkien e valorizar a arte da mesma maneira que ele valorizou? Pense bem. Embora ainda haja muito a ser feito no mundo, uma mente que não está treinada a parar e prestar atenção no tamanho da glória que nos cerca em pouco tempo tornará a existência um fardo. Qualquer mudança, por mais útil que pareça, será inútil quando você não se dispõe a olhar sua pequenez e reconhecer um Deus soberano, criador de tanta beleza, para a nossa alegria e adoração. Pense bastante no céu, onde não haverá mais nada a ser feito para que o mundo melhore, e nada que possa te render reconhecimento. O que sobrará para fazer? Sem dúvida, "somente" aquilo para o que fomos criados: glorificar a Deus e gozá-lo para sempre!
28/12/2011
Revolução versus Regeneração (ou, Porque Sou Contra a Palavra Revolução)
Nota: esse texto foi começado há um bom tempo atrás, e só agora tive a chance de terminá-lo. Pois é, o blog ficou parado por um tempo; talvez porque resolvi me dedicar mais à leitura e menos à escrita. Acho que isso se deve ao Facebook e a outras redes sociais, que ultimamente tem me cansado tanto, e também tem me ensinado a ficar calado e não sair por aí falando o que penso sobre qualquer assunto. Parece que todos nós gostamos da liberdade de expressão que temos nas redes sociais, mas nos esquecemos que essas redes, algumas vezes, estão tirando a nossa liberdade de permanecer calados, ouvirmos e refletirmos... Apesar disso, resolvi, hoje, escrever um pouquinho... de vez em quando isso também não faz mal, uma vez que é uma boa forma de organizar o pensamento. Façamos tudo equilibradamente... :)
Revolução é uma palavra que anda na moda. Junto com o vocabulário redundante e subjetivo do politicamente correto, entre os quais estão as expressões "justiça social" e "política pública", o fato é que a palavra revolução vive na boca do povo, ultimamente. E eu, por mais que possa ser interpretado como chato, conservador e moralista, me recuso a colocá-la na minha boca, a não ser que seja por pura crítica. Não, não coloco mesmo. "Ah!, vai falar que alguma revolução não é boa, por menor que seja"? Calma. Vou discorrer aqui todos os pontos que explicam porque tenho bastante cautela com essa palavra, e não recomendo que cristãos e não-cristãos a saiam utilizando por aí.
O primeiro problema não é nem moral ou filosófico. É puramente semântico. Muito do que chamamos "revolução" não tem nada a ver com o sentido próprio da palavra. Dizemos que Steve Jobs "revolucionou" o mercado com o iPad, quando na verdade a única coisa que ele fez foi inovar. Steve Jobs não revolucionou nada; ele não jogou bases e pressupostos do mercado no lixo e começou uma nova empreitada, do zero. Steve Jobs seria um revolucionário se ele, por exemplo, convencesse as pessoas de que o computador não presta para receber e-mails ou navegar na internet, e que ele serve, na verdade, para servir pão de queijo no café da tarde; fazendo, então, sucesso com o seu iChesseBread. O iPad não é uma revolução e também muito do que vemos não é revolução.
Bem, no fim das contas, a semântica tem sido realmente muito assassinada por esses jovens cheios de razão que postam frases espirituosas no Facebook, não? (Digo isso também me incluindo, eu mesmo já a assassinei várias vezes!). Vou fazer uma digressão, talvez desnecessária, mas é o que tenho pensado... O Facebook, além de ter se tornado, hoje, um pequeno museu de jovens que não tem o que fazer, ou jovens extremamente preocupados em mostrar o quanto são humanos, bonzinhos, e que pensam profundamente nas coisas certas, votam no PT, andam de bicicleta ao invés de carro... também têm se tornado um lugar cômico onde os sentidos das palavras são tão confusos quanto o ensino que receberam nas escolas. "Religião", por exemplo, é um caso - deixou de significar sistema de crenças e agora significa religiosidade hipócrita.
Revolução é uma linda palavra dentro do ideal progressista, que coloca o progresso da humanidade como prioridade número um no mundo, pouco se importando com o resto. É claro que o progresso é algo desejável por todos, mas Chesterton diz: "o louco é quem perdeu tudo, menos a razão". E o revolucionário é, também, o louco, que perdeu a noção de tudo, exceto de que deve fazer a humanidade progredir a qualquer custo. E daí surge a palavra revolução: uma vez que as coisas não progridem e não funcionam, a melhor opção é destruir o que já foi construído e começar tudo de novo, "re-evoluindo". Na versão marxista dessa história, a destruição é a luta armada das classes mais baixas, destruindo as mais altas e ocasionando o progresso. Nas outras versões, o princípio pode até parecer mais humano e santo, mas ele não muda: tudo se resume a "re-evoluir". É perder a paciência e apertar o reset do computador, o que pode até resolver algumas coisas no momento, mas onde você não salva os seus trabalhos e também não garante que ele trave de novo, mais tarde.
Me impressiono, às vezes, com essa face patética do esquerdismo. Parece que tudo se resume a criticar aqueles que se acham bons, e se achar bom por isso. É se orgulhar por parecer humilde, e destruir, com todo ódio, usando a justificativa de que se ama e se quer o bem da humanidade. Como já diria Luiz Felipe Pondé, "eu odeio política como redenção".
E citando Chesterton novamente: "Os homens inventam novos ideais porque não ousam tentar velhos ideais. Eles olham adiante com entusiasmo porque têm medo de olhar para trás".
Você poderia até concordar comigo sobre a interpretação da palavra que dei neste último ponto, mas diria: "tudo bem, mas eu não uso a palavra nesse sentido". E eu respondo: "então escolha outra". Quando eu era criança, ouvia a expressão "garota de programa" e achava que isso se referia às dançarinas do programa do Faustão. Não preciso nem dizer que o resultado era constrangedor para quem estava por perto, quando eu resolvia usar a palavra... Fato é que a nossa língua precisa ser objetiva, caso contrário não há quem se entenda.
Certa vez conversei com um amigo sobre o sentido da palavra revolução dentro do cristianismo. Quando um cristão entrega sua vida a Cristo, o que ocorre não é exatamente uma revolução dentro de si? De certa forma, sim. A regeneração e a nova vida que temos em Cristo, através do Espírito Santo, muda totalmente as nossas bases. Mas espere. Eu acabei de dizer... nós já temos uma boa palavra para isso: regeneração. A expressão "re-gerar", quando colocada lado a lado com "re-evoluir", parece, para mim, muito mais forte. Evoluir novamente não inclui o fato de que as bases são mudadas. Nascer novamente já significa um novo começo, uma nova natureza, uma nova base sobre a qual iremos progredir. E essa base não é mais uma evolução aleatória, materialista, e sem Deus, como muitos sugerem hoje. É um crescimento espiritual real, em todos os sentidos, guiado unicamente por um grande Deus pessoal.
Estes dois conceitos que estou contrastando, afinal, se parecem muito próximos do que conhecemos, na ciência, pelo dualismo do evolucionismo versus criacionismo. Somente Deus é quem cria uma nova vida e uma nova maneira de agir. O homem está em pecado, e não pode "evoluir" sozinho.
Por isso, vou repetir o terceiro ponto: cuidado com essa palavra - você pode ser muito mal interpretado!
"Bem, mas então, como vou falar do Evangelho para o pessoal de humanas da minha universidade, se não chego a eles com conceitos e palavras próprios deles"? Me desculpe, mas me recuso a comentar isso muito profundamente. A princípio até digo: por favor, pare de achar que as pessoas são burras! Com uma boa explicação, todo mundo é capaz de entender a Bíblia, seus conceitos e definições. A não ser que alguém tenha um bom preconceito com palavras, acho que ninguém vai virar as costas para você se você perguntar: "ei, você sabe o que significa expiação? Salvação? Regeneração? Glorificação? Adoração? Oração? Amém?". O vocabulário cristão não é mau. Ele serve para nos ajudar a definir conceitos, nos ajudando muito no evangelismo! E se eles fazem bem para nós, por que não para as outras pessoas? Afinal, como você espera que um professor de computação, por exemplo, explique um algoritmo de busca binária em árvores de dados para alunos que sequer saibam o que é uma árvore de dados?
Tudo bem, eu também concordo que utilizar metáforas e imagens são coisas muito legais quando explicamos o cristianismo, ou mesmo qualquer outro assunto. Mas o evangelismo cristão, para mim, tem duas faces; duas faces que a princípio parecem se contradizer, mas devem sempre permanecer juntas. O evangelismo envolve, sim, utilizar conceitos que a pessoa já conhece para explicar outros. Isso é um princípio básico de comunicação. A própria Bíblia faz isso. Mas, por outro lado, a mensagem cristã é muito diferente do que tudo aquilo que já se conhece. Os atributos de Deus, a salvação em Cristo, e a nova vida no Espírito não se limitam só a imagens que conhecemos, são coisas que superam qualquer experiência terrena. São maiores do que o vento, a água, o fogo, são maiores do que revoluções ou quaisquer outras coisas. Dessa forma, se limitarmos nossa explicação do Cristianismo a apenas coisas que nossos amigos conhecem, de que maneira vamos esperar que eles mudem de posição? Afinal, se o cristianismo se parece com tudo aquilo que eu já sei, porque eu deveria abandonar tudo o que sigo e seguir a Cristo?
Acho que esse evangelismo "didático" que ouvimos ser pregado hoje peca por dois pontos. Primeiro, porque não depende da soberania de Deus em chamar as pessoas, criando uma nova vida de maneira sobrenatural. Ele parece se limitar somente à argumentação racional e humana. E em segundo porque tenta, por vezes, fazer uma imagem de Deus em semelhança de criatura, esquecendo-se de que ilustrações são apenas ilustrações, e não os conceitos em si. E então, criamos pagãos que se dizem cristãos. Criamos pagãos que adoram as revoluções, adoram o amor, adoram a caridade, e não adoram o Deus supremo e absoluto, que sempre ultrapassa nosso entendimento. A Bíblia utiliza, realmente, muitas ilustrações para explicar o nosso Deus e o seu relacionamento com a humanidade, mas, de uma maneira quase que inexplicável, ela também nos ensina que Deus é grande, e nunca poderá ser representado em qualquer forma humana e limitada. Note que, em última análise, isso não é contraditório. Que possamos nos lembrar sempre desse lindo paradoxo do cristianismo!
"Que preciosos para mim, ó Deus, são os teus pensamentos! E como é grande a soma deles! Se os contasse, excedem os grãos de areia; contaria, contaria, sem jamais chegar ao fim." (Salmo 139:17,18)
09/11/2011
Revoluções na USP - O que vimos, a discussão, e os resultados
O Que Vimos
O que vimos nessa semana? Preciso primeiro responder a essa pergunta. Os alunos estão dizendo que a mídia está ocultando informação. Tudo bem, talvez ela não esteja se ocupando em apresentar argumentos. Mas a mídia, antes de ser parcial, não deixa de apresentar os fatos. Vamos primeiro notar o que ela tem apresentado. E, com isso, vou dizer o que eu tenho notado ao assistir as imagens apresentadas na TV e na internet.
1) O início da bagunça se deu com um "Não Pode".
Toda essa história que vimos na USP nesta semana teve o seu estopim com o quê? Uma intervenção policial a alguns alunos que estavam simplesmente agindo contra uma lei federal, que proíbe o consumo de drogas como a maconha.
Foi um péssimo momento de reação. Pois por mais que digam que a mídia esconda os argumentos sérios, a própria reação dos estudantes, naquele momento, já os colocou numa posição mal vista pela sociedade.
O ódio e a raiva incontrolada gerada no momento da manifestação gerou essa imagem ruim dos alunos, que sim, não deixa de ser verdadeira: os estudantes querem poder fumar maconha à vontade e por isso querem a polícia fora do campus.
Como é cínico agir dessa maneira tão imprudente, sujando a própria imagem, e depois ainda colocando a culpa no outro por difamá-lo.
2) Jovens que se acham heróis cheios de razão e sentido
As imagens mostram. O que mais me assusta em todas estas manifestações são as reações dos estudantes. Protestos descontrolados gritando democracia são muito pouco perto daquele "heroísmo idealista" que vemos em algumas imagens de alunos saindo presos e levantando livros, fazendo atos "simbólicos" e querendo mostrar que são o máximo. E ao mesmo tempo que defendem luta de classes e direito a oprimidos, agem como se fosse o maior absurdo agir contra aqueles pilares de sabedoria.
Orgulho: é isso o que os professores de universidade nos têm ensinado. E, dizendo como também um jovem que sente na pele o que é isso, nós muitas vezes nos achamos cheios de razão e a resposta para todos os problemas da humanidade.
Para quem não pode ver algumas imagens da reportagem do Jornal Nacional, assista: http://www.youtube.com/watch?v=yhX5lhDmAOU
3) Jovens barulhentos e provocadores
Muitas pessoas não gostam de ouvir "não". Mas são os jovens que fazem um barulho enorme quando ouvem essa palavra. São os jovens que se colocam em blogs (como eu? hehe), redes sociais, manifestos populares, depredações de patrimônios públicos e vão lá encher o mundo com suas palavras sábias e poderosas, como se fossem Aquele que criou o mundo por sua Palavra.
Chega a beirar o ridículo. Se você tem dificuldade em amar as pessoas, não assista o seguinte vídeo. Mas se quiser assistir e ver como nós, jovens, somos barulhentos, corremos atrás de coisas para acusar e reclamamos por tudo, assista o vídeo abaixo. Me surpreende ver os alunos gritando na cara dos policiais, ridicularizando, praguejando, e depois reclamam quando um deles se "estressa" e os tira do local.
http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=LSwrqEiVOv4#!
Chega a beirar a loucura. Como aquele louco que vê alguém fazer um movimento brusco e pula, gritando: "ele vai me matar! ele vai me matar!". Se um policial fala para alguém sair do lugar, ele está escondendo alguma coisa. Se ele olha feio, está condenando. Se vira a cabeça para o lado, coça a barba ou estica as costas, ele está oprimindo.
Ora, eles dizem que a PM é descontrolada e violenta. Do jeito como eles agem, quem não seria? Fique por alguns segundos, talvez (vou até ser humilde e não falar de minutos ou horas), me provocando, xingando, falando besteiras, dizendo que você está certo e eu estou errado, que eu sou burro... em pouco tempo, ou eu vou me afastar de você, ou eu vou tentar afastar você de mim, ou, na pior das hipóteses, eu vou partir para cima de você.
A "Discussão"
Bom, estes são os fatos e minhas interpretações. Agora vamos ao que os alunos estão reivindicando. Eu concordo que é interessante observarmos os argumentos dos alunos. Sim, eu me dei ao trabalho de ler a manifestação e a reivindicação dos alunos. Li os argumentos e acho bom que as pessoas leiam; não só leiam como também escrevam sobre o assunto. São textos que, embora pouco profundos, despertam discussões políticas que precisam chegar com bastante força ao nosso país, se é que queremos mudança.
Mas deixem-me, agora, propor alguns outros argumentos e comentários sobre o que tenho visto.
1) Injustificável
Imagine que uma pessoa apareça do nada, tire uma arma e mate uma outra pessoa na sua frente. Você se assusta e começa a se afastar. O assassino vira para você e diz: "espera, espera, eu posso justificar"! Justificar o quê, meu jovem? Você acabou de matar alguém!
Como já ouvi bastante durante esta semana, estão dizendo que todos os alunos que são a favor da polícia militar no campus não querem saber dos argumentos do que são contra. São eles os leitores de Veja alienados, capitalistas filhos de papai, elite burguesa, insensíveis, que só querem saber de estudar para ganhar dinheiro. Mas o que temos visto nas imagens? Na minha opinião, o que eu vi foi só ódio, orgulho e tagarelice.
Parece querer demais que as pessoas prestem atenção nas atitudes dos alunos quando estes estão mais preocupados em agir primeiro e só depois justificar. Isso é imprudência. "Mas vocês não nos ouvem, estamos faz um bom tempo falando que a situação está ruim e precisa de mudança". Sim, talvez não ouvimos. Mas a não ser que vocês nos convençam que fazer uma barbaridade dessa vai ajudar a impor suas opiniões, qualquer outra justificativa, por mais "iluminada e intelectual" que seja, não vai ser interessante. Sim, o único argumento que eu me proporia a ouvir numa ocasião dessa seria porque lançar fora a moral e os bons costumes para se conseguir o que quer.
Por isso dou muito mais razão a quem não lê os argumentos e discorda a ação dos estudantes, pois são estudantes que simplesmente viram uma barbaridade e tem o direito óbvio de discordar. Pela moral e os bons costumes. Se os estudantes acham que isso é uma bobagem, então que se deem ao trabalho de justificar, primeiramente, porque os valores e a moral não são necessários. E aí eles têm um bom trabalho... um trabalho vão e que só busca o total retrocesso da humanidade, como comenta C. S. Lewis em seu livro "A Abolição do Homem".
2) Democracia e Ditadura
Como disse o governador Geraldo Alckmin em resposta a uma breve entrevista sobre o assunto, "estes alunos precisam de uma aula sobre o que é democracia". Não gosto do Geraldo Alckmin e nem sou filiado a nenhum partido para ficar falando sobre políticos. Mas tenho que concordar que ele tocou no ponto mais óbvio de toda a questão.
Como seria um processo natural e democrático de uma mudança política numa sociedade? Eu vejo essa questão de uma maneira muito simples: alguém surge com uma ideia e passa a compartilhá-la com outras pessoas. As pessoas observam e julgam se a ideia é boa ou ruim. Passa-se um tempo, um tempo em que naturalmente ou os defensores ou os rejeitadores da ideia são prejudicados, vivendo contra a sua vontade. Tudo isso permanece até o momento em que um instrumento de democracia permite avaliar se a ideia deve ou não ser implementada no governo.
Eu concordo que as coisas são muito mais complicadas; eu apenas citei um caso ideal. Tudo complica quando entra a vontade impositiva do homem e a ditadura. Todos nós sabemos como funciona. Se tivermos poder, podemos simplesmente impor as ideias à força. Ou, se a imposição à força comprometer o nosso poder, fazemos imposição psicológica - a famosa propaganda ideológica que vemos nos materiais escolares são polêmicos que o governo lança. se formos estudantes, fazemos o que?
Os estudantes parecem estar fazendo isso: simplesmente ignoram qual seja a opinião da maioria e está pouco preocupada com isso. Eles querem é agir, e não refletir. E a situação fica assim: por acreditarem, cegamente, que a ideia de expulsar a PM do campus seja uma ideia que parte da democracia, os estudantes começam a ver que vivem numa ditadura, uma vez que a PM permanece no campus e nada é feito. Se você quer acreditar que o seu colega ao lado é um bandido, não se assuste de se encontrar um dia chamando a polícia para prendê-lo. O problema disso tudo é que, no fim, você acaba sendo o injusto da história, e, como no caso dos estudantes, o ditador.
Eu sou contra a PM no campus, não sou socialista e muito menos marxista. E se eu não tiver voz nesse campus, sinto muito, mas terei que dizer que vocês são uns grandes ditadores. Só prometo que não vou sair ocupando o DCE, porque não tenho o menor interesse nisso.
3) Não sou socialista, nem marxista. E aí?
Quando lemos a manifestação escrita dos alunos que invadiram o prédio, nos deparamos com um show de conceitos e ideias que só convenceriam o resto das pessoas caso elas partilhassem da mesma visão política dos manifestantes. O que, obviamente, não se mostram nem argumentos nem justificativas. Vejamos algumas frases:
"Num contexto de crise sistêmica do capitalismo, se evidencia, em todo o mundo, o papel da polícia como aparelho armado de repressão aos movimentos sociais que resistem ao avanço da desigualdade e ataques a direitos históricos da população."
"A reitoria da USP se utilizou de maneira oportunista da morte do estudante Felipe Ramos de Paiva"
"esse projeto político busca submeter a Universidade aos interesses de empresas e fundações privadas, cujo único objetivo é a maximização de seus próprios lucros"
Ora, porque eu deveria acreditar nisso tudo? Eu não sou socialista e muito menos marxista. Essas frases, para mim, são totalmente injustificadas. E porque eu não posso ser a favor das atitudes do Reitor da USP? Cadê a democracia?
4) Universidade de São Paulo, uma universidade brasileira.
Um argumento defendido pelos estudantes é o de que, como universidade, todos eles têm a liberdade de questionar o Estado. E como tem! Concordo plenamente. Mas isso é liberdade de consciência. Não implica em liberdade de agir contra a constituição brasileira. A USP faz parte do Brasil, e do seu Estado. Como isso é obvio...
Um exemplo: discordo e odeio ter que pagar ao governo 60% do valor de um produto eletrônico que vem do exterior. Mas isso justifica o fato de eu comprar produtos piratas? Claro que não. Discordar não implica em se rebelar.
5) Silêncio com relação a outros problemas da universidade
Sim, a USP tem tantos outros problemas. Também não gosto muito do reitor da USP, mas acho que não poderia "demonizá-lo" só porque, como fazem alguns, suas posições tendem à direita. E ele tem várias outras atitudes que podem ser questionadas pelos alunos além da ocupação da PM.
Para quem não sabe, nos últimos anos, os alunos perderam seus direitos à plano de saúde. E até agora não ouvi uma reclamação quanto ao assunto. Também existem vários alunos que discordam do modo como as verbas são distribuídas na universidade. Onde estão as reivindicações?
Quando a única atitude da reitoria questionada pelos estudantes passa a ser algo que eles consideram uma força "repressiva" às vontades desses alunos, a primeira coisa que me vem à cabeça é que eles querem o enfraquecimento do sistema para que eles tomem tudo à força mais facilmente. Tudo bem, talvez não seja assim, mas é uma impressão.
Os Resultados
Reparem nessa frase proferida por Che Guevara (http://www.olavodecarvalho.org/convidados/mnagib.htm): "O ódio como fator de luta. O ódio intransigente ao inimigo, que impulsiona além das limitações naturais do ser humano e o converte em uma efetiva, violenta, seletiva e fria máquina de matar. Nossos soldados têm que ser assim. Um povo sem ódio não pode triunfar sobre um inimigo brutal".
É isso o que o ódio faz, então? Talvez sim. Mas eu também vi o que o ódio fez nesse evento. Gerou milhões de xingamentos, discussões sem sentido, intolerância, vidros quebrados, paredes pichadas, e, acima de tudo, um certo nojo da sociedade perante os alunos. A mídia encobre? Não, a mídia filma, a mídia grava, a mídia publica.
Revoltas são assim. São mini-ditaduras, são bagunças, são ódio. Revolução é como apertar o "reset" do seu computador: você acaba com tudo e começa do zero, mas não garante que o computador vai funcionar direito depois.
O que fazer, portanto, diante disso tudo? Para responder a essa pergunta adequadamente, deveria começar outro post. Mas gostaria de deixar alguns comentários.
Em primeiro lugar, eu vejo que essas notícias não deveriam nos desanimar na busca de uma sociedade melhor. Como cristão, tenho que afirmar que apesar de todas as barbaridades que ocorrem do mundo, Deus reina. Deus reina sobre tudo e sabe o que acontece. E por mais imbecis que nós, todos nós, sejamos ao fazer esses manifestos e escrever estes textos enormes, Deus está reinando. "Por que se enfurecem os gentios e os povos imaginam coisas vãs? (...) Ri-se aquele que habita nos céus; o SENHOR zomba deles". (Salmo 2.1,4). Como é bom saber que tagarelices como essas não vão tirar a glória do Criador!
E em segundo lugar, resta-nos o trabalho árduo de reformar a sociedade não através de rebeldia às leis, mas através de compreensão, amor, e principalmente, tolerância e resignação. "Ah, que bonitinho". Sim, é bonitinho e todo mundo gosta de usar esse discurso. Mas todos gostam porque ele é um discurso vago e pode ser interpretado de muitas formas. Os comunistas dizem que amam a humanidade quando querem promover luta de classes em favor do progresso. Os políticos dizem que amam a nação quando começam a tirar alguns direitos das pessoas. E é por isso que além do amor, usei palavras como compreensão e, principalmente, diálogo. E também resignação - a atitude de ter paciência e saber se calar.
E falando especificamente aos cristãos, devemos buscar tudo isso através da glória do Pai, a redenção do Filho e a nova vida gerada pelo Espírito Santo. Revolução ou regeneração? Como cristãos, que leem e confiam na Bíblia, deveríamos buscar a regeneração. Nossa luta não é contra a carne e o sangue. Que possamos cingir o cinto da verdade, vestir a couraça da justiça, calçar os pés com a preparação do evangelho da paz, usar o escudo da fé, o capacete da salvação e, principalmente, a espada do Espírito, que é a Palavra de Deus. (Efésios 6:11-20) Essa é a nossa luta. Não para buscar a transformação necessariamente em estruturas de poder ou leis, mas principalmente, no mais íntimo dos corações de cada um.
02/11/2011
Bíblia e Reforma
Segue, portanto, um apelo do autor do livro para com essa necessidade.
"(...) Não se pode separar Cristo das Escrituras.
Uma compreensão segura da evidência mostrará por que essa doutrina da inspiração verbal convence com tanta força a igreja cristã. Não adianta tentar refutá-la dizendo que ela é judaica, ou que parece ser do Islã, ou que foi criação do período que se seguiu à Reforma, ou que foi invenção do antigo Seminário de Princeton. De fato, ela foi sustentada pelos judeus, pela igreja primitiva, e ao longo dos séculos da história da igreja. Hoje esse ponto de vista é mantido por um grande grupo de cristãos, muitas vezes intitulados evangélicos ou fundamentalistas. (...) Mas a razão pela qual esses cristãos e muitos mais vêm mantendo essa visão é simplesmente que eles são cristãos e consideram como suprema a autoridade de Cristo. Portanto, creem no que eles lhes mandou crer. Não podem fazer diferente sem de novo trair seu Salvador.
Se há problemas que podem impedir uma crença plena na Bíblia, esses problemas devem ser reconhecidos e uma resposta buscada, ou a fé incentivada onde falta evidência completa. Mas negar a Bíblia, com a consequente negação de Cristo, traz outros problemas que nos nossos dias já levaram nosso mundo ocidental para bem perto do desespero. Não podemos sentir que o distanciamento da Bíblia no século 20 tenha produzido poder espiritual, crescimento em graça, segurança da salvação, paz de espírito, santidade do lar, ou qualquer outro dos frutos normalmente associados com o Cristianismo. Algo está pode na casa da fé. Talvez seja porque os profetas da teologia moderna perderam sua fé no Cristo do Livro."
23/10/2011
O Intrometido
Você já se deparou com uma situação dessas? Já pensou como Esterzinha ou como Davi, e quis enfiar o nariz numa conversa séria onde você não esteve? Você já se ofendeu por não participar de muitas conversas onde você acredita que daria a "melhor opinião" caso estivesse lá? Você já se ofendeu pelo fato de outros conversarem sobre assuntos que você não entenderia?19/09/2011
John Newton e a Noite de Guy Fawkes
---
"O dia 5 de novembro era sempre perigoso em Olney. Muitos jovens embriagavam-se e mostravam-se desordeiros em ocasiões de festas populares, mas a noite de Guy Fawkes (conspirador que tentara, em 1605, explodir o Palácio de Westminster, a fim de restaurar a supremacia católica na Inglaterra) servia de desculpa para manifestarem sua selvageria mais do que nunca. Como resultado [de um recente incêndio na cidade], [John] Newton, juntamente com muitas das pessoas influentes da povoação, considerou sensato pôr um ponto final às habituais orgias das festividades. Castiçais com velas acesas nas janelas das casas com tetos de palha e velas ardendo, sendo transportados por bêbados, através das ruas, não pareciam ser atitudes sábias. A povoação foi devidamente informada. Mas a turba pensava de outro modo.
Conheça a força da sagrada Verdade;
Que ela penetre em vosso ser
E vos ensine a amar e temer.
Que vos mostre o deserto do pecado;
Revelando o imenso amor, na cruz
E nenhum coração resistirá a Jesus.
Os quais são jovens em idade, velhos em pecado.
E, pelo teu Espírito e pela tua Verdade,
Mostra-lhes o estado em que as suas almas estão!"
(De Traficante de Escravos a Pregador, a história de John Newton - Brian Edwards)
15/09/2011
Justiça Seja Feita (III)
Continuaremos, agora, seguindo pelos quatro inimigos restantes, dentre os sete que citei no último post: os inimigos que nos impedem de lidar com a ação social de uma maneira bíblica e que busque somente a glória de Deus. Os últimos três inimigos falaram sobre a nossa negligência quanto à ação social, e, agora, nos próximos quatro, veremos os erros que podem surgir enquanto fazemos ação social.
Antes, devo um pequeno esclarecimento. Tendo já falado de justiça e de ação social, não citei o termo “justiça social”. Fiz assim por considera-lo extremamente controverso e indefinido nas atuais discussões políticas, e sempre que termos indefinidos, temos discussões longas e pouco proveitosas. Eu mesmo considero “justiça social” uma expressão redundante, já que é difícil pensar em justiça se não houver uma sociedade - não existe justiça que não seja social. Sem contar que o presente texto irá tratar sobre a ação social realizada por cada um de nós, como indivíduos, estando longe do meu foco uma discussão política sobre a ação do governo nesse sentido.
Inimigo nº 4: Culpa individual
O primeiro e talvez mais recorrente erro que podemos cometer enquanto buscamos a justiça está relacionado à forma de lidar com o nosso pecado e os nossos irmãos. Todos nós corremos o sério risco de deixar de interpretar a injustiça como um pecado coletivo, e passar a interpretá-lo como um pecado individual.
O que seria isso? É um tipo de farisaísmo. É não se incluir, como um homem pecador, na causa dos problemas da sociedade, e passar a acreditar que tudo o que acontece de ruim se faz por causa dos políticos corruptos, da mídia formadora de opinião, das empresas, dos Estados Unidos, de Cuba, dos movimentos militantes de esquerda. E, ainda por cima, acrescentar que nada no mundo melhora, por causa dos crentes que só vão à igreja “esquentar o banco”. Parece muito fácil dizer que a sociedade está acabada, repetir o texto de Amós 5, e sair buscando a justiça como se fôssemos as pessoas mais santas do mundo. Mas esquecemos de que todos nós contribuímos para a injustiça na sociedade. Esse pecado é coletivo, e não individual.
Como já disse nos últimos posts, vale a pena reparar que o texto de Amós 5 consiste em uma acusação a todas as pessoas, e não só aos mais ricos e poderosos. “Em todas as praças haverá pranto, e em todas as ruas dirão: Ai! Ai! E ao lavrador chamarão para choro, e para pranto os que souberem prantear.” Que possamos assumir nossa culpa coletiva, e dizer como Neemias, neste trecho: “Faço confissão pelos pecados dos filhos de Israel, que temos cometido contra ti; pois eu e a casa de meu pai temos pecado. Temos procedido de todo corruptamente contra ti” (Neemias 1:6-7).
Inimigo nº 5: Fins justificam meios
Leiamos um trecho do livro de ficção “Aquela Força Medonha”, de C. S. Lewis. Trata-se de uma conversa entre o personagem principal, Mark Studdock, e o reverendo Straik, um religioso bem aos moldes do liberalismo teológico que encontramos hoje. Vejamos o que ele diz:
“Não imagine —disse o Sr. Straik — que eu me permito sonhar em pôr em prática o nosso programa sem violência. Vai haver resistência. Hão de atormentar a língua e não se arrepender. Mas não seremos dissuadidos. Enfrentamos essas confusões com uma firmeza que levará os caluniadores dizendo que as desejamos. Pois que o digam. (...) É isto que eu não consegui que nenhuma das Igrejas visse. Cegaram. Cegaram pelos seus imundos farrapos de humanismo, pela sua cultura e humanitarismo e liberalismo, bem como pelos seus pecados, ou aquilo que pensam ser os seus pecados, embora estes sejam realmente aquilo que nelas será menos pecado. E por isso que acabei por ficar isolado: um pobre homem, fraco, indigno, mas o único profeta que restou. Eu sabia que Ele vinha para o poder. E por conseguinte, onde nós vemos o poder, vemos o sinal da Sua vinda. E é por isso que me encontro junto a comunistas e materialistas e amais quem quer que seja que esteja realmente pronto a acelerar a vinda. A mais fraca destas pessoas aqui tem o trágico sentido da vida, a impiedade, a dedicação total, a prontidão para sacrificar todos os valores meramente humanos, que não fui capaz de encontrar entre toda a nauseante hipocrisia da religião organizada.”
Qual é o problema com o Rev. Straik? Bem, poderíamos escrever outro texto, gigantesco, falando sobre o liberalismo teológico as atitudes deste “Ricardo Gondim lewisiano”. São vários erros. Mas o que gostaria de destacar neste trecho é a sua crença de que é possível fazer algo bom para a humanidade com atitudes que ele mesmo chama de “pecado”, aliando-se a qualquer pessoa ou agindo da maneira que se achar melhor. Straik pouco se importa se há violência ou se seus aliados são materialistas e comunistas; para ele, os fins justificam os meios, sendo este fim o de ter o Reino de Deus na terra.
Este inimigo parece ser muito simples de se evitar, mas não é. O caso que citei acima é apenas um extremo, mas sabemos que somos induzidos a pequenas atitudes no dia-a-dia que podem comprometer muito nossa integridade e testemunho, mas que podem dar muitos “resultados positivos” no trabalho social. E a nossa desculpa para agirmos desta forma é muito semelhante à de Straik: “é para o Reino”. Ou, se caso não agirmos desta forma, sabemos que muitos vão nos acusar da mesma forma que Straik: “seu religioso hipócrita”!
Notamos que a causa desse erro também está bastante ligada a uma péssima escatologia, ou, num caso mais geral, a uma péssima teologia. A desculpa de Straik se resume ao fato de que ele quer instaurar, não importa como, o Reino de Deus, numa forma de milenismo misturada a um pelagianismo que coloca a total responsabilidade do homem na Segunda Vinda de Cristo e instauração do novo céu e nova terra. Não estou dizendo que o milenismo origina este tipo de opinião; o problema é o milenismo junto com uma noção humanista que coloca Deus num segundo plano de ação na terra. E desse tipo de pensamento, surge o falatório sobre a falsa esperança no Céu, coisa para acomodar os fracos, sobre a vinda não-literal de Cristo, etc. Não há qualquer noção de que Deus tem soberania para fazer tanto com que a terra morra de fome, tal como prospere. Não há confiança de que somente Deus é quem pode fazer justiça, e não nós, que somos apenas instrumentos.
Há um grande erro, também, na motivação para a ação social. Para os adeptos do “fins justificam meios”, a ação social deixa de ser uma simples obediência ao mandato cultural e aplicação da mordomia cristã. A ação social passa a ser uma atitude crucial, uma salvação por obras, algo a ser buscado a qualquer custo através de revoluções ou Estados totalitários. E motivações erradas ocasionam fins errados: esquecemos de que às vezes nos propomos a servir de uma maneira que sequer está de acordo com a vontade de Deus.
Tomemos mais cuidado quando dissermos “estou utilizando os recursos nas minhas mãos para servir ao Reino”, sem sequer avaliar se estes recursos comprometem nossa santidade ou realmente é o trabalho que Deus deseja que façamos. “Buscai-me, e vivei. Mas não busqueis a Betel, nem entreis em Gilgal, nem passeis a Berseba; porque Gilgal certamente irá ao cativeiro, e Betel será desfeita em nada.”
Inimigo nº 6: Obras, para que nos gloriemos
Sejamos sinceros: os atos de ignorar a culpa coletiva e acreditar que fins justificam meios podem nos levar, muito facilmente, a uma visão marxista da sociedade; ou, numa situação menos radical, a algo que alguns definem como socialismo (que pode não necessariamente ser marxista). Não está em meus planos discutir sobre política nesse artigo, mas como me propus a acusar e alertar sobre alguns erros, devo citar algumas atitudes assumidas por quem se declara assim. Acreditar que a reforma da sociedade se deve à única e exclusiva ação do homem no poder, o Estado, é o maior exemplo do ato de ignorar que todos somos pecadores e que fins não justificam meios. Revoluções armadas e roubo dos ricos para dar aos pobres não deixam de ser pecados; e não, elas não levam ao progresso. E mais: a reforma da sociedade se dá quando toda a sociedade muda de atitude com relação a algum erro, e não somente alguns, que se acham iluminados e tentam corrigir o problema, obviamente, através da força opressiva (física ou psicológica).
E é por isso que, analisando os dois últimos inimigos, sou levado a pensar em um terceiro, que decorre dos últimos: o orgulho de se fazer ação social. Ninguém é iluminado porque faz alguma obra na sociedade, e isso é deixado muito claro no tão conhecido texto de Efésios 2:8-9, “Porque pela graça sois salvos, mediante fé, e isto não vem de vós, é dom de Deus; e não de obras, para que ninguém se glorie”. Lembremos também das palavras de Jesus, em sua parábola do servo inútil (Lucas 17:7-10), que dispensa explicações:
“Qual de vós, tendo um servo a lavrar ou a apascentar gado, lhe dirá, ao voltar ele do campo: chega-te já, e reclina-te à mesa? Não lhe dirá antes: Prepara-me a ceia, e cinge-te, e serve-me, até que eu tenha comido e bebido, e depois comerás tu e beberás? Porventura agradecerá ao servo, porque este fez o que lhe foi mandado? Assim também vós, quando fizerdes tudo o que vos for mandado, dizei: Somos servos inúteis; fizemos somente o que devíamos fazer.”
Obras são para a glória de Deus, somente. Olhando no nosso ponto de vista terreno, somos servos inúteis ao fazê-las, pois nada vem de nós. A força e a retidão não vêm de nós (isso fica muito claro se pudermos ler Lucas 17 desde o começo, que fala sobre a necessidade do perdão e a fé comparada a um grão de mostarda).
O resultado de uma visão arrogante da ação social é óbvio: começamos a desprezar qualquer tipo de trabalho que não tenha uma relação muito direta com ela. Uma forma com a qual gosto de ilustrar a situação seria se, por exemplo, você encontrasse uma memória de computador jogada na rua, observasse-a por um tempo, e no fim dissesse: “que pedaço de lixo”. Em seguida, visse uma placa-mãe, e dissesse: “isso não presta para nada”. E, enfim, você chega em casa, e vê um computador aberto, com tudo aquilo que você jogou fora. Você o liga e começa a navegar na internet, ouvir música, assistir filmes, estudar, trabalhar. Parece uma história boba, não? Mas da mesma forma como ela é boba, é bobo dizer que um engenheiro não faz nada, projetando um chip de computador, enquanto você dá aula numa escola infantil carente. É bobo dizer que um pastor, pregando num domingo à noite, não faz nada enquanto você distribui comida aos necessitados. Pois se o engenheiro parar de produzir, ou se o pastor parar de pregar, de nada vai adiantar que você continue dando aulas ou distribuindo alimentos. Na nossa visão orgulhosa, nos tornamos cegos, e esquecemos que todos são igualmente importantes em seus trabalhos, assim como igualmente culpados em suas negligências.
O trabalho do nosso próximo muitas vezes não tem um vínculo tão claro, aos nossos olhos, com a justiça na sociedade, mas sempre precisamos aprender a, com toda a humildade, avaliar o trabalho de cada um. Deus confiou ao homem uma tarefa crucial, algo que chamamos de mandato cultural. Sobre isso, Paul Freston, em seu livro “Religião e Política, Sim; Igreja e Estado, Não”, faz um comentário, se referindo ao texto de Gênesis 1.26-28 (onde encontramos o trecho “Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a”):
“Todos os seres humanos têm um mandato cultural. Deus não criou um mundo pronto e acabado, mas providenciou todo o material necessário e deu ao homem a responsabilidade e o privilégio de desenvolver as potencialidades do universo. (...) O desenvolvimento cultural em todos os seus sentidos, desde a técnica até a cultura erudita, passando pela criação de instituições sociais e políticas, é a vontade de Deus. (...) Somos chamados a ser colaboradores de Deus na criação do mundo.”
Vejamos que a abrir uma instituição de caridade, por exemplo, não deixa de ser uma forma de seguir o mandato cultural. Mas ela não é a única forma. Todo trabalho é digno se seguir a proposta do mandato cultural, que está intimamente ligada à justiça na sociedade. A Bíblia condena a negligência para com os pobres e necessitados, mas não condena a prosperidade material, intelectual, econômica, militar de uma nação. Isso promove a glória de Deus, e, na medida que o faz, também produz justiça, de forma direta ou não.
Portanto, sejamos humildes: nossa atitude de dizer “seu trabalho não presta para o reino de Deus” pode fazer muitos cristãos se sentirem inúteis, impuros e desanimados. Enquanto não descartarmos os dois últimos inimigos, não descartaremos este terceiro, e estaremos comprando brigas desnecessárias, desprezando e desencorajando o trabalho do nosso próximo. Mas o fato é que cada um de nós, por conta própria, não prestamos para o reino de Deus, seja o que fizermos. Oremos para que sejamos somente instrumentos nas suas mãos.
Inimigo nº 7: O justiceiro
Conforme já foi dito anteriormente, todos nós podemos deixar de acreditar que somente Deus pode fazer justiça. Mas também sabemos, muito claramente, de que temos um mandato cultural, onde devemos buscar a sua justiça na Terra. Surge, então, a pergunta: até que ponto vai a nossa ação?
Seria bom observar estes versículos de Amós: “Buscai o bem, e não o mal, para que vivais; e assim o Senhor, o Deus dos exércitos, estará convosco, como dizeis. Aborrecei o mal, e amai o bem, e estabelecei o juízo na porta. Talvez o Senhor, o Deus dos exércitos, tenha piedade do resto de José”. A nenhum momento, aqui, Amós incentiva o povo a sair destruindo a cidade, como o próprio Deus ameaça, ou criar uma revolução. E Amós nem mesmo se declara como um novo político, incentivando um messianismo, e dizendo que quando ele tomar conta da situação, a justiça será feita.
Voltamos, mais uma vez, aos tais “cristãos comunistas” (como se fosse possível existir algo assim), que têm muito em comum com a atitude da justiça com as próprias mãos. O marxismo prega que a humanidade só irá progredir quando os pobres fizerem a tal “justiça” com os ricos. A teologia da libertação prega que a vida cristã consiste no ativismo, a única atitude correta, onde busca-se uma justiça que Deus, apenas de uma maneira sugestiva, deixou indicada na Bíblia (sem que Ele aja ou faça qualquer coisa nesse sentido).
E qual é o problema disso? Diria que as causas são duas, e sendo elas causas, que possamos tentar enxerga-las nas nossas vidas, mesmo que sejamos os tais “cristãos certinhos que não são comunistas”.
A primeira causa está em ignorar que todos nós somos pecadores e precisamos de arrependimento. A culpa é coletiva. Amós não é um livro de revolução: é um livro de exortação ao arrependimento. Todos são culpados, e não há justiça que alguém poderia fazer, sozinho, para mudar a situação. O coração é enganoso, e não há nada que possamos fazer. Só Deus pode fazer a justiça e restaurar a terra.
Porque eu digo isso? Vejamos como o livro de Amós termina, no capítulo 9, vs. 11 a 15. Deus é quem promete restaurar a Terra, na sua soberania.
Naquele dia tornarei a levantar o tabernáculo caído de Davi, e repararei as suas brechas, e tornarei a levantar as suas ruínas, e o edificarei como nos dias da antiguidade; Para que possuam o restante de Edom, e todos os gentios que são chamados pelo meu nome, diz o SENHOR, que faz essas coisas.
Eis que vêm dias, diz o SENHOR, em que o que lavra alcançará ao que sega, e o que pisa as uvas ao que lança a semente; e os montes destilarão mosto, e todos os outeiros se derreterão. E trarei do cativeiro meu povo Israel, e eles reedificarão as cidades assoladas, e nelas habitarão, e plantarão vinhas, e beberão o seu vinho, e farão pomares, e lhes comerão o fruto. E plantá-los-ei na sua terra, e não serão mais arrancados da sua terra que lhes dei, diz o SENHOR teu Deus.
E assim, a segunda causa está em ignorar que a justiça de Deus já foi feita. “Como assim?” Este trecho de Amós aparece uma segunda vez na Bíblia, no Novo Testamento (não irei transcrever aqui, mas para fins de análise: Atos 15:12-21). Este trecho de Amós é um tipo do Antigo Testamento, apontando para a restauração que Deus fará no homem.
E que restauração é essa? É a morte redentora de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos purifica de todo pecado e nos dá uma nova vida, de santidade e sensibilidade para com Deus. Enquanto os marxistas buscam o seu bode expiatório, lutando contra ricos e poderosos e dizendo que eles são a causa de todo pecado, nós, cristãos, assumimos que todos nós somos a fonte do pecado, entretanto Cristo, o Filho de Deus, tomou sobre si nossos pecados e se tornou o Cordeiro expiatório, de uma vez por todas. E, assim, o Espírito Santo cria em nós uma nova vida, nascida da água e do Espírito, conforme o profetizado pelo profeta Ezequiel:
“E vos tomarei dentre os gentios, e vos congregarei de todas as terras, e vos trarei para a vossa terra. Então aspergirei água pura sobre vós, e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos vos purificarei. E dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne. E porei dentro de vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, e guardeis os meus juízos, e os observeis.” (Ezequiel 36:24-27)
Qual é a maior fonte de injustiça da terra? Seriam as instituições? Seriam as empresas? Seria a negligência? Não. A maior fonte é o nosso coração. Mas Deus já fez justiça, e nos oferece uma nova vida em Cristo. O convite é claro, e o próprio Amós nos oferece, tal como todos o discurso evangelístico do Novo Testamento: “Arrependei-vos e crede”. Arrependei-vos. Não há justiça sem arrependimento. E esta é a grande mensagem do livro de Amós: diante de uma sociedade destruída, Deus fala através de um pastor de Tecoa, para que cada um se arrependa e se volte para Ele.
Dessa forma, podemos ver que não há melhor maneira de buscar justiça do que aquela de pregar o Evangelho de Cristo a toda criatura. Não há nada mais importante do que levar as pessoas a Cristo, fazendo seus pecados recaírem sobre Ele, e, portanto, permitindo que a justiça seja feita! A Igreja, portanto, tem um papel muito importante na sociedade. John Piper, na conclusão de seu livro “Finalmente Vivos”, conclui toda a questão da justiça em poucas palavras:
"Então, se você sofre porque deseja uma mudança em si mesmo, em seu casamento, na vida de seus filhos pródigos, em sua igreja, nas estruturas de injustiça, no sistema político, nas hostilidades entre as nações, na degradação do meio-ambiente causada pelos homens, na obscenidade de nossa cultura de entretenimento, na miséria dos pobres, na insensível opulência dos ricos, nas injustiças das oportunidades educacionais, nas atitudes humanas causadas por algum tipo de cobiça humana - se você sofre por alguma dessas coisas, deveria se importar muito com o novo nascimento.
Há outras maneiras de moldar a cultura e guiar o comportamento, mas nenhuma é tão profunda. Nenhuma tem um alcance tão amplo. Nenhuma possui tão grande relevância. Nenhuma é tão eternamente significativa."